Sempre me achei distante dos outros. Havia e ainda há algo que me diferenciava substancialmente.
A diferença era a tristeza e sua grande adequação e aceitação pelo núcleo mais profundo de minha personalidade. Ela não parecia um momento, mas um traço permanente, algo constante e formador mesmo do que eu era. Enquanto alguns pareciam fugir daquele sentimento incômodo, eu me aproximava e, aos poucos, aquela tristeza, aquela melancolia, se tornavam próximas de mim, fazendo-se presentes, como o meio, de forma constante.
Ela dava, de certa maneira, o tom da realidade. Ela participava de forma ativa dos elementos do quadro que eu observava. Ela era a lente que filtrava a luz que me chegava. O pano de fundo do palco da minha peça. Por ser objeto constante de fuga, como a morte, a tristeza se transformou em elemento raro e, por assim dizer, sintoma de originalidade.
Como parte fundadora da realidade e como substância mesma da minha existência, ela me parecia e aparecia como algo natural e intimamente ligada à natureza mesma da existência humana e, talvez por isso, me obrigou a enxergar as coisas como elas eram e não como eu gostaria que elas fossem. A tristeza, vista como elemento vital, como força, como impulso, funciona mesmo como uma linha, uma estrada, que deságua na reflexão e no afastamento. A inadequação às formas existentes e tidas como corretas e recomendáveis provoca uma busca cega e inevitavelmente faz com que ela, a tristeza, retorne de modo agressivo e insuportável. Transformando-se em forma oculta, ela causa o sofrimento natural a quem sente, mas não percebe o que sente.”