Domingo chuvoso. Levanto-me da cama e carrego algumas garrafas vazias para o lixo. Três maços de cigarro estão em cima do criado-mudo. Verifico todos e os deixo como estão. Encontro mais um em outra mesa: uma escrivaninha de madeira que imita uma escrivaninha do século passado. A madeira parece a mesma, mas esta é deste século. Faltam-lhe alguns pedaços.

Abro a porta e sigo para a cozinha. O piso é frio, e meu corpo quente sente a variação, mas não me importo. Só noto isso agora. Coloco as garrafas no lixo e aproveito para servir-me de um café. Não é fresco, mas também não é velho. Retorno ao quarto e sinto o ar pesado: fumaça e um toque de estagnação. Acho que isso não faz bem, pelo menos é o que dizem. Abro a janela. É uma grande janela, um misto de janela e porta, mas defino como janela, pois ela não cumpre a função de porta. Não leva a lugar nenhum. Não existe um parapeito, apenas uma grade que cerca o quarto de um corredor de cimento liso. Na medida em que a chuva cai, o cimento liso vai ganhando uma tonalidade verde-lodo. Não me importo.

Vejo na casa ao lado o vizinho gesticulando de costas para a sua janela. Não sei se está nervoso, calmo, feliz ou triste, mas gesticula apaixonadamente, e sinto pena de quem é obrigado a ouvi-lo. Perco a imagem de foco e volto. Olho para a escrivaninha de madeira que imita uma escrivaninha do século passado e resolvo me sentar. Encontro uma mochila descansando sobre a minha cadeira. É uma cadeira também antiga, mas não tão antiga. Chamam de cadeira do presidente. Que seja. Ela balança. Entre seu corpo e seu pé existe uma coisa articulada, e preciso me assentar na ponta para que ela não deite de uma só vez. Já tive medo de que ela me derrubasse, mas hoje nos entendemos bem. Ela faz a parte dela e eu a minha. Tiro a mochila e finalmente me assento. Sua espuma está cansada; já foi macia, mas hoje é dura. Eu também.

Esqueci-me do café, e agora ele está frio. Cigarros de filtro amarelo, lâmpadas de tonalidade amarela, fim de tarde amarelo. Água, remédios, chaves, pentes, livros, ventiladores, bonés. Como precisamos de coisas! Não sei como me sinto, não sei o que pensar. Escrevo, e isso parece ajudar. O velho Charles tinha razão. A chuva deixa tudo mais monótono, e amanhã preciso voltar para o mundo, encarar as pessoas. Elas são como a chuva: deixam tudo monótono, mas são necessárias. Alguém precisa produzir os maços de Marlboro. Outro dia li em algum lugar que, de todos os cigarros, o Marlboro é produzido pelo próprio Deus. Prefiro o Carlton, mas confesso que achei graça.

Procuro uma música, não encontro e escolho qualquer coisa. Acho que é jazz. Jazz brasileiro, com leves pitadas de bossa nova. É chato, mas insisto. Quarteto de sopro, baixo acústico, percussão. Harmonia e um longo solo de saxofone com notas pesadas de piano nos intervalos. Improviso. Volta o tema. Fim. Os músicos parecem se entender. Uma linguagem própria. Sorriem entre si e se divertem. Ao fim, tristeza e uísque. Às vezes, a coisa não acaba bem para eles. A arte tem seu peso: vantagens e desvantagens. Sinto certo prazer na melancolia. Santo Agostinho condena. A tristeza que gera prazer não pode ser confundida com a compaixão. A verdadeira compaixão gera dor e uma enorme vontade de que o ato gerador não existisse.

Não consigo controlar. Quando sinto é dor; quando me compadeço da dor do outro, é compaixão. Sutil. Confuso, mas verdadeiro. Compadeço-me porque é lá e não cá. Se fosse cá, eu correria. Correria eternamente sem olhar para trás. Não desejo ver a sua face. Sinto-me feliz em conhecê-la por representação. Já não sei sobre o que falo. Talvez eu nunca tenha sabido. A janela que parece porta se fechou sozinha. Preciso ir e não pretendo voltar. Essa cadeira me machuca.
Preciso trocá-la.

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Lucas Caiafa

Colunista

Categoria: Reflexão